Canetas Coloridas

Posted on terça-feira, 10 junho 2008. Filed under: Sem-categoria |

Ele terminou de prender as canetas coloridas no caderno velho e rasgado, tomou fôlego e se levantou exibindo o caderno e as canetas.

“Boa tarde meus amigos! Estou aqui pedindo novamente a ajuda de vocês. Ofereço estas canetas coloridas que acabei de comprar na loja. Estou desempregado mas nunca me faltou força para trabalhar. Estou com uma filha aqui e deixei a outra em casa com mãe…”

Suas roupas eram velhas, mas não rasgadas. Camisa vermelha desabotoada e calça marrom. Ele tentava falar com decisão mas a voz o traia. A falta de dentes certamente não ajudava. Não conseguia também olhar e direção das pessoas do ônibus. Seu olhar se desviava para as janelas. Fazia aquilo por que precisava, mas não era um trabalho de verdade, digno de um trabalhador. Às vezes olhava para a criança que estava com ele, cuidando para que não caísse do banco.

“Peço sua ajuda, cada caneta é um real, aceito também vale transporte. Não tenho carteira, tenho que pagar a passagem do ônibus. As canetas estão boas eu garanto, acabei de sair da loja. As canetas são de duas cores: Azul com preto e só azul…”

Neste momento ele pega uma de suas canetas coloridas e risca o caderno. O caderno está muito amassado e sujo. Há coisas escritas nele, mas é impossível ler. Aliás, pela maneira que ele segurou a caneta dava a impressão que além de não ter dinheiro também não sabia escrever.

“Qualquer cooperação eu aceito, qualquer dez centavos, qualquer cinco centavos eu agradeço…”

Ele passou pelo corredor do ônibus, não tive coragem de olhar para ver o que aconteceria. Eu não tinha nem cinco centavos para lhe dar, mas acho que ele vendeu algumas canetas e conseguiu algumas moedas.

“Muito obrigado, que Deus devolva a vocês em dobro!”

Quase perdi o meu ponto. Desci do ônibus e a imagem daquele homem não me saia da cabeça. Na minha Viagem tive que pedir comida e cheguei a ouvir um “Não!”, mas sabia que não precisava de verdade estar fazendo aquilo. Ainda assim, toda vez que tive que pedir foi muito difícil tomar coragem. Mesmo para uma pessoa largada como eu, não consegui imaginar o que é estar na pele daquele senhor.

Na verdade eu tinha dez reais. Na hora nem me passou pela cabeça dar a ele. Creio que no momento eu pensei que meus problemas financeiros eram mais importantes que os dele.

Este post mostra que mudei de idéia.

Publicado em 10 de Julho 2004

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Também já tive muita vontade de entregar todo meu dinheiro em momentos desse tipo. Não me faz muito bem viver isso. Parece que eu fico num estado reflexivo durante uma semana depois que passo por uma situação do tipo.

O problema é que não podemos confiar em ninguém neste país, infelizmente. Então eu pago o preço do remorso e nunca ajudo a ninguém. Até porque temos uma carga de impostos monstruosas e enquanto ajudarmos o governo a “não os utilizar” estaremos de certo modo “não fazendo” o nosso papel cívico.

Por outro lado a fome é algo que não pode esperar. Difícil questão…


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